A padronização do vocabulário radiológico dos laudos de médicos radiologistas e a elaboração de uma forma estruturada pré-definida para a análise e interpretação de estudos radiológicos (“laudos estruturados”) poderiam, em tese, melhorar o entendimento dos relatórios pelos pacientes e médicos que solicitam os exames. Entretanto, apesar do potencial benefício teórico, é necessário destacar que tal prática pode ter consequências indesejadas.

Quem já leu “1984”, a obra clássica de George Orwell, sabe da importância da liberdade de expressão e do livre uso das palavras para a adequada comunicação de qualquer tipo de mensagem, o que vale também para um laudo radiológico. Para contextualização, nesta obra de ficção de Orwell, o governo hiperautoritário determina a criação de um novo idioma chamado “Novilíngua”, desenvolvido não pela criação de novas palavras, mas sim pela “condensação” e “remoção” de palavras e de alguns de seus significados, com o objetivo de restringir o escopo e abrangência do pensamento da população.

Assim como na “Novilíngua”, a restrição do uso das palavras na radiologia pode restringir e prejudicar a compreensão da “mensagem” que se quer passar a respeito do diagnóstico do paciente, considerando as peculiaridades e especificidades de cada caso, com possível impacto negativo na condução clínica do paciente. Assim como na obra de Orwell, é importante garantir a autonomia do radiologista em usar livremente o vocabulário que preferir em seus laudos, bem como em decidir como analisar e interpretar os exames, mantendo seu estilo e forma próprios de descrição, e expondo visão específica sobre cada tema.

Uma vez que o conjunto formado por cada paciente e sua enfermidade é único – com particularidades epidemiológicas, psicossociais, biológicas, genéticas, etc. -, parece ser lógica a necessidade de permitir ao médico radiologista o uso de um vocabulário radiológico amplo e abrangente para que transmita da melhor forma possível sua “mensagem”, e não o oposto.

Alguns advogam, ainda, que a sistematização e padronização de relatórios radiológicos agrada particularmente empresas que atuam no desenvolvimento de “softwares”, como os que aplicam inteligência artificial à radiologia; mas esse é um assunto delicado e controverso.

O mais importante é não perder o foco no que é mais importante em qualquer ato médico: o paciente.

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