Realidade aumentada e 3D na formação médica e interpretação de imagens

|2 jan, 2026|Categorias: Medicina|9,3 min de leitura|
estudante de medicina utilizando realidade aumentada

Modelos tridimensionais e realidade aumentada (RA) mudaram a forma de aprender anatomia, planejar procedimentos e interpretar exames complexos. Ao sobrepor camadas digitais ao mundo físico ou permitir a exploração imersiva de estruturas, essas tecnologias aproximam o raciocínio clínico do que realmente acontece no centro cirúrgico e no diagnóstico por imagem.

Em educação, a simulação 3D favorece o aprendizado ativo, com manipulação de volumes, cortes multiplanares e navegação por estruturas vasculares e neurais. A repetição deliberada em ambientes controlados melhora a retenção e reduz curva de aprendizado, especialmente em habilidades espaciais essenciais para radiologia e cirurgia.

No cuidado assistencial, a RA apoia planejamento cirúrgico, marcação de margens e correlação entre achados de imagem e anatomia real. Modelos 3D derivados de TC e RM facilitam a discussão multidisciplinar, comunicação com pacientes e revisão de casos incomuns.

Qualidade e segurança dependem de validação e de integração a padrões de imagem (DICOM, DICOM Segmentation, DICOM Surface). A avaliação crítica do impacto, a documentação de limitações e o alinhamento a diretrizes garantem que a tecnologia agregue valor sem criar ruído ou falsas certezas.

 

Fundamentos: o que RA e 3D entregam de diferente

Modelos 3D reconstroem volumes a partir de voxels, permitindo visualização de superfícies e de tecidos por técnicas volumétricas. A RA projeta essas informações no campo de visão do usuário por óculos dedicados ou dispositivos móveis, preservando contexto espacial durante ensino e procedimentos.

Para radiologia, o ganho está em traduzir cortes axiais, coronais e sagitais para uma representação mental coerente. Em leitura de malformações vasculares, fraturas complexas ou tumores que envolvem planos anatômicos, a compreensão volumétrica acerta o diagnóstico diferencial e antecipa dificuldades técnicas.

Em cirurgia, a RA atua como “navegador” que sugere trajetórias, respeitando marcos anatômicos. Quando calibrada e registrada ao paciente, a sobreposição ajuda a reduzir tempo de exploração e potenciais desvios, desde que o usuário mantenha consciência das incertezas do registro e do movimento de tecidos.

 

Formação médica e ensino de anatomia

Cursos de anatomia com RA e 3D substituem parte de aulas expositivas por exploração interativa. O estudante isola estruturas, oculta camadas e observa variações anatômicas com fidelidade. Esse método favorece estilos diferentes de aprendizado e se soma ao método tradicional de laboratório cadavérico.

Na radiologia, residentes praticam correlação anátomo-radiológica com volumes que reproduzem casos reais, incluindo variantes e patologias pouco frequentes. O feedback imediato e repetível acelera aquisição de competências.

Limitações existem. Sem curadoria e objetivos claros, a experiência vira passeio visual sem ganho mensurável. Trilhas com metas, listas de verificação e avaliações objetivas tornam o estudo efetivo e comparável entre turmas.

 

Simulação procedural e habilidades técnicas

Simuladores 3D com RA treinam punções, biópsias, drenagens e trajetórias endoscópicas sob orientação de imagem. O aprendiz pratica escolha de janela, ângulo e profundidade, errando sem risco e corrigindo imediatamente a estratégia.

Em cardiologia e neurointervenção, modelos vasculares impressos em 3D ou virtuais permitem testar cateteres, stents e curvas, reduzindo a dependência de tentativa e erro no paciente real. O ganho prático aparece na diminuição do tempo de fluoroscopia e do uso de contraste em operadores iniciantes, conforme relatado em estudos de validação educacional.

Transferência para o mundo real exige métricas robustas: tempo para tarefa, taxa de sucesso, economia de radiação, e avaliação cega por preceptores. Simuladores devem refletir resistência tecidual, variação anatômica e complicações plausíveis, evitando overfitting a cenários ideais.

 

Cirurgia guiada por imagem com RA

Na sala operatória, RA apresenta trajetórias planejadas, limites tumorais e estruturas a evitar (vasos, nervos) diretamente no campo do cirurgião. Em ortopedia e coluna, sistemas com rastreamento óptico e registro ao paciente ajudam a orientar parafusos pediculares e osteotomias com maior precisão.

Em cabeça e pescoço, modelos 3D de tumores e segmentos vasculares orientam acessos e margens. A integração com navegação baseada em TC ou RM pré-operatória acelera etapas e reduz variação entre cirurgiões, desde que a equipe domine calibração e saiba quando desconfiar de desvios.

Apesar de promissora, a RA intraoperatória requer validação contínua. Erros de registro, atraso de renderização e oclusões pelas mãos ou instrumentos podem induzir desvios. Protocolos de verificação em marcos anatômicos e plano de fallback para técnicas tradicionais são obrigatórios.

 

Revisão de exames complexos e tumor boards virtuais

Comitês oncológicos ganham previsibilidade quando casos são apresentados com modelos 3D que explicitam relações com vasos, vias biliares e demais planos. A comunicação entre radiologia, cirurgia e oncologia fica mais objetiva, com menor ambiguidade na definição de ressecabilidade ou necessidade de terapia neoadjuvante.

Em neuro, a reconstrução de lesões e tratos (quando disponível em mapa de difusão) melhora planejamento de craniotomias e ressecções, apoiando discussão de risco-benefício com o paciente. Esses artefatos devem ser rastreáveis: origem do dataset, software, parâmetros e data de geração constam do dossiê clínico.

Para radiologistas, a navegação 3D complementa o laudo textual. Impressões diagnósticas com grau de certeza e recomendações proporcionais ao risco permanecem no centro, e o 3D atua como evidência visual que facilita concordância entre equipes.

 

Integração técnica: DICOM, segmentação e registros

Fluxos confiáveis começam na origem do dado. Segmentações e malhas devem ser exportadas em padrões reconhecidos (DICOM Segmentation, DICOM Surface, STL/OBJ quando apropriado) com metadados completos para reuso e auditoria. Isso evita versões divergentes do mesmo modelo espalhadas por dispositivos.

O registro entre o modelo e o paciente precisa de protocolos claros: pontos fiduciais, superfícies e verificação de erro residual antes do uso clínico. Mudanças de posição, edema ou colapso de cavidades alteram a anatomia; a equipe checa coerência e sabe quando recuar para imagens atualizadas.

O pipeline técnico ideal integra PACS, estações de trabalho 3D e plataformas de RA por DICOMweb e APIs documentadas. Logs de acesso, versões de arquivos e trilhas de processamento preservam rastreabilidade e suportam perícias e ensino.

 

Usabilidade, fadiga visual e fatores humanos

Óculos de RA e telas imersivas podem causar fadiga ocular, desconforto cervical e sobrecarga cognitiva, especialmente em sessões longas. A ergonomia depende do peso do dispositivo, campo de visão, luminosidade do ambiente e desenho da interface.

Em cirurgia, a quantidade de informação exibida exige parcimônia. Camadas acionáveis, com hierarquia visual e filtros, evitam saturação. Treinamento prévio e sessões curtas de adaptação reduzem enjoo cibernético em usuários novos.

A adoção real ocorre quando a tecnologia diminui o esforço mental e o tempo de tarefa. Testes de usabilidade com profissionais de diferentes perfis expõem obstáculos de navegação e comandos, permitindo ajustes antes da expansão.

 

Validação, evidência e limites

Estudos de simulação e ensaios pragmáticos em centros cirúrgicos e de imagem mostram ganhos em tempo, precisão e aprendizado, com variação por cenário e experiência do usuário. Revisões sistemáticas sinalizam benefício educacional consistente, embora apontem heterogeneidade metodológica e amostras pequenas.

Em cirurgia guiada, séries clínicas e estudos comparativos descrevem melhora de acurácia de parafusos e redução de reoperações em algumas especialidades. Ainda assim, persistem limitações: custo, tempo de preparo de modelos, sensibilidade a erro de registro e necessidade de equipe treinada.

A prática segura exige medir impacto local, publicar resultados e ajustar trilhas de uso. Sem monitorar indicadores, o brilho tecnológico pode esconder ganho assistencial.

 

Ética, privacidade e conformidade

Modelos 3D e cenários de RA usam dados pessoais sensíveis. O tratamento segue base legal, finalidade clara e minimização, com anonimização para ensino e pesquisa quando cabível. Em demonstrações educacionais, consentimento e descaracterização reduzem risco de reidentificação.

Logs de acesso, controle por perfil e criptografia em trânsito e repouso protegem os dados. A documentação da cadeia (da aquisição à visualização) sustenta auditorias e conformidade com políticas institucionais e marcos regulatórios.

Em ensino, é prudente rotular materiais com data, versão e contexto de uso. Em assistência, a versão exibida precisa corresponder ao estado clínico atual; divergências são registradas e justificadas no prontuário.

 

Implementação e métricas de sucesso

Projetos começam com casos de uso de alto impacto: planejamento de cirurgias complexas, tumor boards de alta demanda e módulos de anatomia crítica. Pilotos controlados, com indicadores definidos, reduzem risco e calibram expectativas de custo e benefício.

Algumas métricas úteis incluem: tempo de preparação de modelos, acurácia de registro, tempo de procedimento, economia de fluoroscopia, adesão a recomendações, satisfação do usuário e desempenho em avaliações objetivas em ensino. Percentis descrevem melhor a variação do que médias isoladas.

A escalabilidade aparece quando o pipeline técnico se integra ao PACS/RIS e quando a equipe domina atalhos e limitações. O foco permanece no valor clínico e educacional, não na novidade da interface.

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Referências

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