Radiologia e acreditação hospitalar: como alinhar processos à ONA e Joint Commission

|15 jan, 2026|Categorias: Gestão Médica|10,6 min de leitura|
medica utilizando carimbo de acreditação

A telerradiologia pode fortalecer a governança clínica e a segurança do paciente quando seus processos são desenhados para atender critérios de acreditação. ONA e Joint Commission avaliam se a organização tem sistemas confiáveis, rastreáveis e centrados no cuidado. Isso exige protocolos técnicos bem definidos, comunicação clínica efetiva e métricas que demonstrem desempenho e melhoria contínua.

Em radiologia, o valor percebido pelo paciente e pela equipe assistencial deriva de alguns pilares: pedido correto, exame adequado, execução padronizada, laudo claro e comunicação tempestiva de achados críticos. A telerradiologia precisa comprovar que esses pilares são sustentados por processos reprodutíveis, integrados ao prontuário e auditáveis do início ao fim do ciclo do exame.

Os referenciais de ONA e Joint Commission convergem em temas-chave: segurança do paciente, gerenciamento de risco, qualificação de equipes, comunicação efetiva, uso de diretrizes baseadas em evidências e suporte à melhoria contínua. Alinhar fluxos de telerradiologia a esses eixos facilita auditorias e reduz variabilidade assistencial, além de mitigar riscos legais e reputacionais.

Este artigo detalha como traduzir requisitos de acreditação para o dia a dia da radiologia, com foco em protocolos, interoperabilidade, rastreabilidade e monitoramento. O objetivo é fornecer um roteiro prático para integrar o serviço de telerradiologia aos processos hospitalares, mantendo conformidade regulatória e desempenho assistencial mensurável.

 

Governança clínica aplicada à telerradiologia

A acreditação valoriza estruturas de governança que definem responsabilidades, revisam desempenho e sustentam decisões por evidências. Em telerradiologia, um comitê multiprofissional deve formalizar políticas para seleção de exames, critérios de priorização, padronização de laudos, comunicação de achados críticos e revisão por pares. Atas, planos de ação e indicadores precisam estar disponíveis para auditoria.

Mapeie o ciclo completo do exame: solicitação, checagens de segurança, preparo do paciente, aquisição, transmissão, laudo, validação, comunicação e arquivamento. Para cada etapa, descreva riscos, controles preventivos e planos de contingência. O desenho de processo com matriz de responsabilidades (RACI) demonstra clareza de papéis entre hospital, operador de telerradiologia e equipes locais.

Estabeleça metas clínicas e operacionais alinhadas à estratégia institucional. Exemplos: tempo porta–laudo (turnaround), taxa de comunicação de achados críticos dentro do prazo, concordância interobservador e taxa de exames repetidos por falha técnica. Registre revisões periódicas e a utilização desses dados para melhoria contínua, evidenciando o ciclo PDCA.

 

Segurança do paciente e identificação correta

Os padrões destacam identificação positiva do paciente em múltiplos pontos do fluxo. Configure verificações antes da aquisição e antes do laudo, incluindo nome completo, data de nascimento, documento e conferência com a requisição. Em pediatria, utilize dupla conferência com responsável. Registre o método de identificação no RIS/PACS garantindo rastreabilidade.

Implemente regras para exame certo no paciente certo, no lado certo e no momento correto. Protocolos de “time-out” radiológico e checklists adaptados ao contexto (ressonância, tomografia, hemodinâmica) reduzem erros. Garanta que contraindicações (alergias, função renal, gravidez) sejam capturadas por campos obrigatórios no pedido e visíveis ao radiologista.

Para achados críticos, adote política de comunicação com prazos definidos por prioridade clínica. Documente canal, destinatário, horário e confirmação de recebimento. Essa exigência, sustentada por diretrizes profissionais e boas práticas internacionais, evita atrasos terapêuticos e demonstra foco em desfechos.

 

Protocolos técnicos, padronização e qualidade de imagem

Protocolos técnicos baseados em diretrizes devem estar versionados e aprovados por liderança clínica. Inclua parâmetros por modalidade, indicações clínicas, redução de dose quando aplicável e critérios de repetição. Para tomografia, descreva estratégias de otimização de dose e níveis de referência diagnóstica; para RM, defina sequências mínimas por indicação; para ultrassom, especifique presets e janela acústica.

Padronize laudos com modelos estruturados quando útil, especialmente em condições com alta prevalência ou impacto terapêutico. Relatórios estruturados melhoram completude, facilitam mineração de dados e reduzem ambiguidade. Inclua vocabulário controlado, medidas, escores e recomendações quando respaldadas por evidência.

Programe auditorias internas da qualidade de imagem e aderência a protocolos. Use amostragens mensais com critérios objetivos de avaliação e retroalimentação às equipes. Documente não conformidades e planos corretivos com prazos e responsáveis, fortalecendo a evidência de melhoria contínua.

 

Interoperabilidade e continuidade do cuidado

A acreditação espera integração segura e eficiente entre sistemas. Adote DICOM para imagens, HL7 v2 ou FHIR para mensagens clínicas e perfis IHE para coordenar fluxos entre HIS, RIS e PACS. Utilize identificadores únicos e mapeamento consistente de estudos, séries e laudos para evitar duplicidades e perdas de informação.

Implemente reconciliação de identidade do paciente e do exame, inclusive para exames externos. A compatibilidade com cartões nacionais de saúde e chaves locais reduz erros. Para comunicação clínica, integre alertas de achados críticos ao prontuário e a aplicativos do time assistencial, com confirmação e rastreio.

Para continuidade assistencial, disponibilize laudos estruturados e imagens em visualizadores zero-footprint com controles de acesso. O compartilhamento deve ser rápido, registrando logs de acesso. Essa interoperabilidade tangibiliza a coordenação do cuidado e reduz retrabalho e exposição desnecessária do paciente.

 

Rastreabilidade, auditoria e gerenciamento de risco

Rastreabilidade completa é requisito central. Mantenha trilhas de auditoria desde a criação do pedido até a visualização do laudo. Registre horário, usuário, estação e alterações relevantes. Em falhas de transmissão ou indisponibilidade, ative planos de contingência documentados com prazos para retomada e comunicação às equipes.

Adote classificação de incidentes, quase falhas e eventos adversos com análise de causa raiz quando necessário. Registre impacto, medidas imediatas, ações corretivas e lições aprendidas. Divulgue resultados em fóruns de segurança do paciente e incorpore mudanças aos protocolos.

Para exames repetidos ou discordâncias diagnósticas, defina critérios de revisão por pares e thresholds para escalonamento. Diferencie variabilidade aceitável de desvios sistemáticos. Evidencie que a aprendizagem organizacional reduz a frequência e a gravidade dos riscos ao longo do tempo.

 

Proteção de dados, confidencialidade e LGPD

A conformidade com a LGPD requer base legal clara para o tratamento de dados de saúde, controles de acesso por perfil, registro de consentimentos quando aplicável e minimização de dados. Realize avaliações de impacto de proteção de dados em novos fluxos e serviços de telerradiologia, documentando riscos residuais e medidas mitigadoras.

Implemente criptografia em repouso e em trânsito, segregação de ambientes, gestão de chaves e testes de vulnerabilidade periódicos. Estabeleça política de retenção e descarte seguro de dados, incluindo mídias removíveis e backups. Registre incidentes de segurança e notifique autoridades e titulares quando exigido por lei.

Treine equipes sobre confidencialidade, phishing, compartilhamento indevido de capturas de tela e discussões de casos em ambientes não seguros. Auditorias de acesso devem ser regulares, com resposta padronizada a acessos indevidos e feedback educativo.

 

Comunicação clínica e resultados críticos

Defina taxonomia de urgência e prazos de comunicação compatíveis com o risco clínico. Para resultados que alteram conduta imediata, a comunicação deve ser ativa, com registro de confirmação. Para achados significativos, utilize alertas eletrônicos com confirmação de leitura e prazos definidos. Para achados inesperados porém relevantes, inclua recomendações objetivas e rastreáveis no laudo.

Padronize canais: ligação registrada, mensagem segura integrada ao prontuário e, quando disponível, alertas no aplicativo do time clínico. O laudo deve refletir o que foi comunicado, a quem e quando. Essa aderência evidencia conformidade com boas práticas e reduz eventos sentinela.

Monitore KPIs de comunicação: taxa de entrega no prazo, tempo médio até confirmação e taxa de pendências. Analise causas de atraso e ajuste processos para eliminar gargalos técnicos e organizacionais.

 

Indicadores, auditoria clínica e melhoria contínua

Selecione indicadores que cubram estrutura, processo e desfecho. Exemplos: disponibilidade do sistema, tempo pedido–aquisição, tempo aquisição–laudo, taxa de repetição por falha técnica, taxa de achados críticos comunicados no prazo, concordância interobservador e adesão a protocolos de dose.

Defina metas, métodos de cálculo e periodicidade. Utilize cartas de controle para detectar variação especial e investigar causas. Publique resultados para equipes e governança, mantendo transparência e foco em aprendizado.

Implemente auditoria clínica com amostra representativa de laudos, avaliando completude, clareza, recomendações e correlação clínica. Registre planos corretivos e reaudite itens críticos. Essa cadência demonstra o ciclo de melhoria exigido por ONA e Joint Commission.

 

Qualificação profissional, credenciamento e dupla leitura

Estabeleça critérios de credenciamento baseados em formação, titulação, experiência e manutenção de competência. Registre privilégios por modalidade e subespecialidade, com renovação periódica condicionada a desempenho e educação continuada.

Promova programas de educação que abordem protocolos, segurança do paciente, comunicação e proteção de dados. Registre presença e avaliação de aprendizagem. Em áreas de maior risco, adote dupla leitura seletiva ou auditoria dirigida, documentando concordância e feedback.

Mantenha repositório de assinaturas, carimbos e certificados, além de trilhas de logs que comprovem quem reportou, revisou e liberou cada laudo. Essa transparência facilita auditorias e aumenta confiança entre equipes.

 

Documentação, prontidão para auditorias e integração contratual

Organize um dossiê de conformidade com políticas, POPs (procedimentos operacionais padrão), mapas de processo, matrizes de risco, planos de contingência, relatórios de indicadores e atas de comitês. Inclua evidências de testes de desastre, exercícios de comunicação de resultados críticos e auditorias de proteção de dados.

Garanta que contratos com provedores de telerradiologia descrevam responsabilidades clínicas, requisitos de segurança da informação, indicadores, SLAs, confidencialidade e direitos de auditoria. Alinhe o contrato à política institucional e às exigências regulatórias, evitando lacunas de responsabilidade.

Realize simulações de auditoria com checklists alinhados a ONA e Joint Commission. Corrija achados com planos de ação objetivos e prazos factíveis. Ao final, reúna evidências em repositório central com controle de versão e acesso por perfil.

 

Eficiência operacional sem perder qualidade assistencial

Escalabilidade e eficiência são compatíveis com qualidade quando processos são padronizados e monitorados. Automação de tarefas repetitivas, roteamento inteligente de casos por competência e carga, e uso de laudos estruturados reduzem variabilidade e tempo de ciclo sem comprometer a segurança.

Serviços de telerradiologia podem operar em modelos distintos, desde ofertas premium focadas em subespecialidades e auditoria extensiva até modelos otimizados para custo-efetividade com altos volumes e SLAs configuráveis. O denominador comum deve ser a aderência a diretrizes, rastreabilidade e governança clínica.

No planejamento, priorize integrações robustas, indicadores acionáveis e acordos claros de comunicação clínica. Assim, a telerradiologia permanece alinhada aos critérios de acreditação e apoia a entrega de cuidado seguro e previsível. Saiba como a STAR Telerradiologia auxilia instituições a atender critérios de acreditação com eficiência, fale conosco.

 

Referências

Organização Nacional de Acreditação (ONA). Manual Brasileiro de Acreditação – ONA. ONA, 2023. https://www.ona.org.br.

Joint Commission International. JCI Accreditation Standards for Hospitals. JCI, 8th ed., 2024. https://www.jointcommissioninternational.org.

World Health Organization. Global Patient Safety Action Plan 2021–2030. WHO, 2021. https://www.who.int/teams/integrated-health-services/patient-safety/policy/global-patient-safety-action-plan.

American College of Radiology. ACR Practice Parameter for Communication of Diagnostic Imaging Findings. ACR, 2023. https://www.acr.org/Clinical-Resources/Practice-Parameters.

Integrating the Healthcare Enterprise (IHE). IHE Radiology Technical Framework. IHE, 2024. https://www.ihe.net/resources/technical_frameworks/.

National Electrical Manufacturers Association. DICOM Standard (PS3). DICOM, 2024. https://www.dicomstandard.org.

Brasil. Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (Lei nº 13.709/2018). Governo Federal, 2018. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2018/lei/l13709.htm.

Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem. Programa de Acreditação em Diagnóstico por Imagem (PADI). CBR, 2024. https://padi.org.br.